segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Marabá 100 anos: A revolta dos galegos e a declaração de emancipação

A declaração de emancipação no ano de 1908 em Marabá é um acontecimento ainda pouco conhecido da história do sul do Pará. Embora pareça de pouca relevância, seus reflexos se vêem hoje com a formação política da região.

Esta emancipação não desenvolveu-se da noite para o dia, mas foi um processo que teve início nos conflitos entre donos de casas de aviamento e os barqueiros (atravessadores). O primeiro grupo era liderado pelo poderoso coronel Norberto de Melo, que era dono da maior casa de aviamento da região e "detinha" - não de forma regular, claro - a posse de áreas ricas em caucho e castanha, além de ser ligado aos grupos políticos de Goiás. O segundo grupo, conhecido como "galegos", era composto basicamente pelos imigrantes de origem árabe (sírios, libaneses e palestinos). Os galegos - na prática, atravessadores - eram ligados a elite de Belém (donos de casas exportadoras), que lhes comprava os produtos extrativistas que recolhiam das casas aviadoras de Marabá, São João e região, e dependia dos empréstimos dados por esta elite para poder comprar mais produtos e manter sua frota de barcos.

O conflito se desenrolou com a revolta dos donos de casas de aviamento pelo preço que estava sendo praticado pelos barqueiros (galegos) que faziam o comércio entre Belém e Marabá, já que estes últimos além de compararem os produtos extrativistas por preços consideravelmente baixos, emprestavam ás casas de aviamento com juros muito altos. Ao grupo dos galegos interessava o controle da política local, que até este momento era dominado pelos comerciantes aviadores.

A "revolta dos galegos" colocou os grupos em disputa pelo controle da vila, mas rapidamente se alastrou para os vilarejos vizinhos: São João do Araguaia, Breu Branco (nesta época ainda vila de "Breu Velho"), Lago Vermelho, Conceição do Araguaia e Alcobaça. O grupo de Melo foi mais eficiente e após alguns dias de conflito tomou o controle de Marabá, imediatamente assinando a "declaração de Marabá" no ano de 1908, documento que elevava a vila á condição de cidade e anexava o sul do Grão-Pará ao Goiás.

Em Conceição do Araguaia o grupo liderado pelo comerciante Estevão Maranhão e seu tio Leão Leda garantiam apoio da região do Araguaia ao intento das cidades do médio Tocantins paraense de vincular-se ao Goiás. A situação em Conceição mudou de rumo quando Leda confrontou os interesses de Dom Carrerot e da diocese de Goiás, ao propor a criação do estado de Pastos Bons, englobando o recém anexado sul do Grão-Pará e o norte do Goiás (hoje estado do Tocantins). A diocese temia que com esta proposta perdesse o controle dos ricos territórios eclesiásticos do Araguaia e Tocantins. A diocese entrou em conflito com o grupo de Maranhão e Leda e os venceu em uma sangrenta batalha.

Na prática Goiás ainda não havia anexado o sul do Grão-Pará, mas recebeu com euforia a declaração trazida pelo advogado provisionado João Parsondas de Carvalho. Rapidamente Goiás reconheceu o documento e informalmente anexou o sul do Pará aos seus domínios. Para firmar sua posição na região, o presidente de Goiás, Rocha Lima,  nomeia como coletor de impostos o comerciante aviador Norberto de Melo e como juiz da comarca o também comerciante de caucho Antônio Maia.

O grupo dos galegos viu-se obrigado a pedir auxílio do governo do Grão-Pará, que como resposta imediata envia uma pequena tropa para "pacificar" os grupos revoltosos. A tropa não consegue por fim ao conflito e é expulsa logo depois, deixando a vila em um intenso conflito.

Como resposta mais incisiva o Grão-Pará cria os municípios de Conceição do Araguaia e São João do Araguaia como forma de arrefecer os ânimos da região. Contudo a ação não teve o resultado esperado, pois não contemplou os importantes vilarejos de Marabá e Alcobaça (não criados por represália). O conflito continuou, mas com o desenrolar da situação em Conceição, onde o grupo de Maranhão e Leda fora derrotado, os grupos de Marabá e São João perdem força. Mesmo com a perda de força e apoio, a região permanece de facto como domínios de Goiás até o final do ano de 1909.

O governo do Grão-Pará envia um comunicado ao Goiás em que ameaça mandar tropas para retomar o controle dos vilarejos revoltosos ainda "não pacificados" (Conceição, Marabá e São João). Como consequência desta ação, o Goiás desiste de permanecer com o controle da região e gradualmente o grupo de Melo perde força e é obrigado a aceitar o plano de pacificação do governo do Grão-Pará. A derrota reforçou a crescente hegemonia dos galegos (imigrantes árabes) na vila, que a partir da década de 1940 tomou o controle de todas as esferas de poder na cidade e depois na região.

As elites de Belém apostaram que tudo pararia por aí... engano! Quando a "poeira baixou" em 1910, surgem diversas petições de emancipação municipal, que culminou neste mesmo ano na "Proposta do Itacaiúnas". Esta consistia num velho projeto de emancipação regional, inspirado nas ideias da província de Pastos Bons, contudo com nova roupagem, agora agregando somente os territórios do sul do Pará. Reunidos em torno da figura de Antônio Maia, levam a petição á Belém e ao Rio de Janeiro, contudo não obtiveram o apoio almejado.

Entretanto a proposta do "estado do Itacaiunas" incomodou o parlamento paraense, que queria de uma vez por todas enterrar o separatismo regional. A subida ao poder do grupo lemista (partidários de Antônio Lemos), menos avesso ás elites interioranas, culminou em 1913 na emancipação de Marabá. A emancipação vinha a calhar com os objetivos das elites regionais, que "sossegaram" após a vitória política. Maia, figura chave deste processo, era filiado ao grupo de Lemos, tanto que foi nomeado o primeiro presidente da comissão administrativa do município (equivalente a prefeito interino).

Fontes
  •  MONTARROYOS, Heraldo Elias. História social e econômica da Casa Marabá: reconstruindo o cotidiano de um barracão na Amazônia Oriental entre 1898 e 1906. Revista História e-História. Campinas, 2013. Disponível em: <http://historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=222>.
  • COSTA, Célio. Assimetrias Regionais no Brasil – Fundamentos Para a Criação do Estado de Carajás. [S.l.]: Ocelivros, 2011. 415 p.
  • PACHÊCO FILHO, A.K.G. Varando mundos: navegação no vale do rio Grajaú. Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2011. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/stricto/teses/Tese-2011_Alan_Kardec_Pacheco.pdf>.
  • ANTÔNIO MAIA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2013. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Ant%C3%B4nio_Maia&oldid=34424597>. Acesso em: 21 out. 2013.
  • REPÚBLICA DE PASTOS BONS. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2012. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Rep%C3%BAblica_de_Pastos_Bons&oldid=33095862>. Acesso em: 6 fev. 2013.
  • MARABAONLINE. A fundação de Marabá. Disponível em: <http://www.marabaonline.com.br/links/historia_int.php>. Acesso em: 21 out. 2013.
  • SCHMINK, Marianne; WOOD, Charles H. Contested Frontiers in Amazonia. Comubia University Press. New York City, 1992. p. 141-145

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